O Brasil investe cerca de 2% do PIB por ano em infraestrutura, metade dos patamares próximos a 4% que, segundo o plano de governo de Ronaldo Caiado (PSD), seriam necessários para modernizar os ativos do país. A poucos dias do primeiro turno das eleições 2026, marcado para 4 de outubro, o que esperar para a logística e o transporte brasileiro caso o candidato, que tem como vice Gilberto Kassab (PSD), seja eleito?
O programa prevê um planejamento de infraestrutura com horizonte de 30 anos, um calendário permanente de concessões, a triagem de obras paralisadas e o rebalanceamento da matriz de transportes, hoje concentrada no modal rodoviário.
As propostas para o setor estão concentradas no tema “Infraestrutura”, mas também aparecem nos capítulos sobre agronegócio, Nordeste, segurança pública, energia e relações exteriores.
A reportagem faz parte de uma série especial da MundoLogística que apresenta as propostas dos candidatos à Presidência da República para a logística brasileira. As matérias anteriores abordaram os planos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Augusto Cury (Avante), Flávio Bolsonaro (PL) e Renan Santos (Missão).
INVESTIMENTO ABAIXO DO NECESSÁRIO
“Infraestrutura é o sistema circulatório da economia”, destaca o documento, ao abrir o capítulo dedicado ao tema. Segundo o diagnóstico do plano, o investimento público e privado em infraestrutura se mantém em torno de 2% do PIB ao ano, enquanto o consenso técnico indica a necessidade de patamares próximos a 4%, de forma sustentada.
O percentual é semelhante ao de estudo da Inter.B Consultoria encomendado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), que projetou investimentos de R$ 277,9 bilhões em 2025, o equivalente a cerca de 2,2% do PIB. Transportes concentraram a maior fatia, com R$ 89,9 bilhões.
O plano atribui o quadro principalmente à descontinuidade das políticas entre governos e à falta de manutenção dos ativos existentes. O documento destaca ainda que o setor privado responde por mais de 70% dos aportes anuais em infraestrutura e organiza as propostas em três compromissos: “um Estado que planeja, um Estado que dá segurança e um Estado que mobiliza capital”.
PLANEJAMENTO DE LONGO PRAZO E OBRAS PARALISADAS
A primeira proposta do capítulo é instituir um Plano Nacional de Infraestrutura como política de Estado, com horizonte de 30 anos, revisões periódicas e uma carteira única de projetos priorizados por critérios técnicos de retorno econômico e social. Uma instância técnica independente, com mandato próprio, avaliaria os grandes projetos e publicaria análises de custo e benefício.
O plano prevê ainda publicar com antecedência a carteira e o cronograma plurianual das obras, para que a indústria nacional de máquinas e equipamentos programe sua capacidade. Na manutenção, a proposta é que nenhum ativo novo seja contratado sem plano de conservação financiado. “Inaugurar é bom, mas conservar também”, diz o texto.
Outra medida é um programa nacional de triagem das obras paralisadas, com decisão obrigatória e prazo definido para cada empreendimento: concluir, transferir à iniciativa privada por concessão ou parceria, ou encerrar formalmente.
Segundo levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) divulgado em julho de 2025, 11.469 das 22.621 obras financiadas com recursos federais estavam paralisadas, o equivalente a 50,7% do total, a maior parte nas áreas de educação e saúde.
CONCESSÕES, PPPS E FINANCIAMENTO
O plano prevê manter um calendário permanente e previsível de leilões em rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, saneamento, energia e infraestrutura social, dando continuidade ao Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). A proposta inclui apoio técnico a estados e municípios na estruturação de projetos, o uso da concessão de ativos maduros para financiar novas obras e o reinvestimento das outorgas no próprio setor, “em vez de dispersar-se no orçamento geral”.
No financiamento, o documento propõe aprofundar instrumentos de mercado de capitais, como títulos incentivados e fundos de infraestrutura, com o BNDES atuando prioritariamente como estruturador de projetos e catalisador de capital privado.
O programa também prevê mecanismos de garantia e de compartilhamento de risco, instrumentos para reduzir o risco cambial do investidor estrangeiro e a remoção de barreiras para que fundos de pensão e seguradoras invistam em infraestrutura.
SEGURANÇA JURÍDICA E LICENCIAMENTO
Na regulação, o plano propõe fortalecer as agências reguladoras com autonomia técnica, diretorias completas e orçamento adequado, além de consolidar a solução consensual de conflitos, com repactuações estruturadas e arbitragem. O texto prevê ainda avaliações de impacto regulatório e ambientes regulatórios experimentais, os chamados “sandboxes”. “Contrato é para ser cumprido; regra clara é o melhor atrativo de capital”, afirma o documento.
Para o licenciamento ambiental, a proposta é estabelecer prazos definidos, procedimentos simplificados para projetos padronizados e de baixo impacto e coordenação unificada para os projetos estruturantes. “O objetivo não é rebaixar a exigência ambiental: é trocar demora e incerteza por regra clara e rigor técnico”, diz o plano.
O tema tem legislação recente. A Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei 15.190/2025) foi sancionada em agosto de 2025 com 63 vetos, dos quais 52 foram derrubados pelo Congresso em novembro do mesmo ano.
MATRIZ DE TRANSPORTES E PISO DO FRETE
Sob o título “Logística integrada para reduzir o Custo Brasil”, o plano propõe rebalancear a matriz de transportes, com prioridade a ferrovias, hidrovias, cabotagem e terminais intermodais, conectando as regiões produtoras aos portos. O objetivo declarado é colocar o custo logístico do país “em trajetória firme de queda”.
Segundo o estudo anual do Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS), as rodovias responderam por 63,4% das mercadorias transportadas no país em 2025, e os custos logísticos equivaleram a 15,5% do PIB.
O mesmo item trata do transporte rodoviário de cargas. O plano propõe atualizar a metodologia da tabela de pisos mínimos do frete rodoviário, que considera “defasada desde 2022”, para refletir os custos reais da atividade e dar previsibilidade a transportadores e embarcadores. “Cada real economizado em logística é competitividade devolvida ao produtor brasileiro”, afirma o texto.
Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) concluiu uma revisão técnica do piso mínimo do frete, que atualizou os coeficientes e parâmetros usados no cálculo por quilômetro rodado.
O programa prevê também elevar a eficiência do transporte de cargas com digitalização e inteligência de dados. No capítulo sobre crescimento, a melhoria da logística aparece entre as medidas de uma agenda nacional de produtividade.
CORREDORES E ARMAZENAGEM PARA O AGRO
No capítulo de agronegócio, o plano propõe organizar ferrovias, hidrovias, rodovias, portos e armazenagem em corredores logísticos estratégicos, com um programa decenal para a logística do setor, manutenção permanente das hidrovias e ampliação da capacidade de armazenagem próxima às regiões produtoras.
O documento lista como obras prioritárias de escoamento a Ferrogrão, a Ferrovia Norte-Sul, a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), a Malha Norte, a BR-163 e as hidrovias do Centro-Oeste e do Norte.
Entre esses projetos, a Ferrogrão, planejada entre Sinop (MT) e Miritituba (PA), teve em maio a validação, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da lei que alterou os limites do Parque Nacional do Jamanxim (PA) para permitir a passagem da ferrovia. O empreendimento ainda depende de licenciamento ambiental.
Na armazenagem, dados reunidos pela MundoLogística com base na Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam um déficit de 134,1 milhões de toneladas, diante de uma produção estimada em 353,4 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26.
O programa prevê ainda direcionar recursos públicos do agro prioritariamente para garantias, seguro, irrigação e armazenagem, estruturar um Plano Safra plurianual, com horizonte de cinco anos, e executar o Plano Nacional de Fertilizantes, ampliando a produção interna de potássio e nitrogenados.
NORDESTE E INTEGRAÇÃO SUL-AMERICANA
No capítulo dedicado ao Nordeste, a proposta é concluir e integrar a Transnordestina, a Fiol, ferrovias, portos, cabotagem, rodovias de conexão, terminais e aeroportos regionais “com base em demanda e retorno”. O texto prevê também resolver acessos urbanos e portuários, ampliar a armazenagem e conectar os polos produtivos da região ao mercado interno, à América do Sul, à Europa, à África e à América do Norte.
A Transnordestina tem 832 quilômetros executados, o equivalente a 84% do trecho previsto até o Porto do Pecém (CE), segundo dados divulgados em setembro, com previsão de conclusão dessa etapa até o fim de 2027.
Na política externa, o plano prevê priorizar corredores rodoviários, ferroviários, hidroviários e portuários de integração sul-americana, conectando regiões brasileiras ao Pacífico e aos mercados vizinhos, “com viabilidade econômica e governança de projetos aferidas caso a caso”.
SEGURANÇA NOS CORREDORES LOGÍSTICOS E PORTOS
No capítulo de segurança pública, o programa propõe criar o Comando Nacional de Proteção de Fronteiras e Corredores Logísticos, reunindo Forças Armadas, Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, forças estaduais, órgãos ambientais e autoridades portuárias e aeroportuárias. A proposta integra o Sistema Integrado de Proteção à Soberania Nacional, vinculado a um novo Ministério da Segurança Pública.
O programa inclui ainda uma Política Nacional de Segurança Portuária e Aeroportuária, com protocolos e ferramentas tecnológicas de combate ao tráfico internacional de drogas e armas, e centros integrados de comando e controle nos principais portos.
Nas divisas estaduais, a proposta é integrar informações sobre armas, veículos, cargas roubadas, mandados e movimentações de facções.
ENERGIA E COMBUSTÍVEIS
No capítulo de energia, o plano propõe incentivar o uso de biometano e biodiesel nas frotas pesadas e de combustível sustentável de aviação (SAF) no transporte aéreo, além de expandir a eletrificação do transporte público urbano. No agronegócio, prevê um Plano Decenal de Bioenergia que integre etanol, biodiesel, biometano e bioeletricidade, e a ampliação da produção de combustíveis de baixa emissão, incluindo combustíveis marítimos.
Para o gás natural, a proposta é ampliar a oferta competitiva para a indústria, enfrentando gargalos de escoamento, processamento e transporte, e assegurar o acesso de terceiros às infraestruturas essenciais.
COMEX, INDÚSTRIA E TECNOLOGIA
Na área de relações exteriores, o programa prevê consolidar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, negociar novos acordos comerciais e ampliar a presença brasileira na Ásia, na África e no Indo-Pacífico. O plano também propõe retomar “com pragmatismo” o processo de aproximação com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
No capítulo da indústria, a proposta inclui fortalecer e equipar os órgãos de controle alfandegário, “com o uso mais intensivo de equipamentos tecnológicos e de Inteligência Artificial”, e criar um Programa Nacional de Indústria 4.0 e de IA, com prioridade para pequenas e médias empresas.
O documento prevê ainda um programa definitivo de depreciação acelerada para a modernização industrial.
Christian Presa
MUNDO LOGÍSTICA

